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Agora sou esposa, mãe, completa! Mas continuo minha... Sempre!


19
Nov08

 

A linha foi lançada, com o isco, ao mar. Todos, um dia, fomos ou seremos isco para peixe graúdo ou para um peixito rançoso que nem espinhas de vida ainda possui. Corpo escorregadio, como o de tantos homens e mulheres que nos fogem das mãos. Nos saltam da linha, fogem do nosso isco.
            As águas do Tejo brilham como se estivesse cheia de pequenos diamantes. O Sol remira-se nelas, vaidoso da sua força, da sua beleza, da vida que emana dele. Domingo de tarde. As pessoas passeiam-se à beira rio. Umas correm, o suor cheio de toxinas de semana de trabalho, sai-lhes pelos poros. As famílias que se vestiram a rigor para um passeio de domingo à tarde em Lisboa. A Capital. O centro de tudo e de nada. Belém. Primavera. 4 da tarde.
            Olho para os teus apetrechos de pesca. A cana, a linha, a embalagem da “minhoca”, coisas… O banquinho que trouxeste em homenagem aos meus joelhos. Sorrio, deixo o banco para ti porque sou mulher de me sentar no chão de pernas cruzadas à “chinês”, e volto a focar o brilho das águas do Tejo. Porque sentada no chão sinto as vibrações da terra e consigo saborear melhor os momentos. Estou em contacto com o meu elemento natural.
 
            - Sei que te prometi um passeio de barco e um robalo. Mas como enjoas achei por bem algo mais calmo. Além disso este sítio tem o seu encanto. Olha a ponte por exemplo. À noite é lindíssima.
 
            Observo a 25 de Abril. A minha mãe está na outra margem. Quase que a toco. Mas não quero. Foco-me noutra coisa qualquer. Porque sou mesmo assim. Faço para esquecer. Olho para ti. Estás concentrado na minhoca que se contorce na ponta do anzol.
 
            - Também te contorceste de dor e medo, no “anzol” da guerra que não despoletaste?
 
            Acendo um cigarro, movimento que se repete várias vezes nos meus dias. Fazes-me uma careta que tantas vezes vejo de quem vê uma menina bonita a fumar. Não me incomoda. Dou a mesma desculpa de sempre.
 
            - Um dia deixo… Mas tinhas dor?
 
            Falas-me como se fosses o Manuel António das tuas histórias.
 
            - Não matei. Tinha a dor de matar antes de isso acontecer. Sofrer por antecipação. A inocência que tem, o simples acto de premir o gatilho, tão inocente. Depois o impulso da arma, o choque do “coice” que manda, do disparo, de outro disparo já nada inocente. A queda do outro lado do abismo que há entre as duas civilizações. Por vezes um grito de dor, por vezes o silêncio. Passar pelo corpo que jaz no chão, inerte, boca retorcida como que num esgar, porque não se ouviu a sua última palavra, não se sabe o que pensou naquele instante efémero. O camarada que dá um pontapé no cadáver para se assegurar da rigidez da morte. Do ultimo sopro de vida que o vento não levará mais. Aquele que te dá uma palmada nas costas. Porque é fanático de guerra, por o serviço estar cumprido, porque já não és “virgem” naquilo. Outros porque é assim que tem de ser e porque se está ali para isso mesmo. O que mais custa? Aqueles que não se manifestam… Não sabem se a vez deles chegará. Olha está a picar…
 
            Puxas a linha e eu atiro o cigarro para longe, levantando-me. Observo. Só fui uma vez à pesca e pouco ou nada percebo. Normalmente pesco mais idiotas que peixes.
 
            A linha é enrolada em torno do carreto. Depressa. Dás à manivela. Surge algo. Surpresa! Rio-me tanto que tenho de me sentar outra vez.
 
            - Não era bem isto que esperava. Ora, uma fralda! Não te rias, malvada!
 
            - Sabes, isso acontece-me muitas vezes quando só “pesco”, na vida, porcarias. - Continuo a rir apesar da seriedade do assunto. - Depois ponho-me a olhar para a dita “fralda” e penso no que farei com aquilo. (Silêncio prolongado). Perguntaste-me quantos terão conspurcado o meu corpo. Sabes, também sei ser filha da mãe.
 
            Acendo outro cigarro, estas conversas abusam-me dos nervos.
 
            - Samuel - gosto de te chamar assim - achas que um homem de verdade pode amar uma mulher como eu? Com o meu passado, sem medo?
 
            Ouvem-se as gaivotas que pensam teres pescado peixe fresco. Abres um saco e enfias a fralda lá dentro. Posteriormente irá para o lixo assim que se encontrar um para o efeito.
            Penso no teu gesto. Deitar fora o lixo que se pescou.
 
            - Deve ser a única táctica. Por o lixo no lixo. Não nos sentirmos fracos ou menos bons por nos ter calhado porcaria no nosso anzol. Colocar as coisas no lugar delas. Esquecer. Que depois tratem disso num aterro qualquer. A semana passada disseram-me que eu era uma mulher inteligente, com potencial, mas não me quiseram. Fui posta de lado uma vez mais. Quando falo com aquela força que vem, não sei de onde, de dentro de mim, eles encostam-se à parede mais próxima como se se quisessem enfiar nela. Como se as minhas palavras fossem uma tempestade, um furacão, do qual têm que se abrigar. - Hoje em dia já ninguém sabe falar. Queria vê-los a argumentar para salvar os próprios “coiros”. Morriam, mal abrissem a boca com um “Hum? Não percebi a pergunta.”. - Eles têm medo das coisas, de mim, que eu não seja esta de verdade. Dizem que sou boa de mais para eles. Parece-me que não têm garra e dão desculpas de merda.
 
            Sentas-te ao meu lado, queres uma “passa” do meu cigarro. Sorves o fumo. Tosses.
 
            - Isso pode ser interpretado como uma pessoa que tem um carro que adora. É fantástico, topo de gama, a cor perfeita, os estofos lindos de pele, confortável. Mas têm medo de ter um acidente com ele. De tirá-lo da garagem. E antes que percam o carro num acidente posterior, espetam-se com ele numa parede ou enfiam-no na garagem até ter ferrugem. Não tiveram o prazer de fazer uma viagem bonita, calma, confortável. Não o saborearam. Não o conheceram. Sabem lá que as coisas boas têm de ser experimentadas.
 
            - Sofreu por antecipação…
 
            Acenas com a cabeça. Ao fundo ouvem-se pequenas gargalhadas de criança. Viramos a cabeça em direcção ao som belo que corre até nós. A tua estrela de vida aproxima-se com o sol que o vosso filho concebeu num momento de perfeita harmonia com a mulher, a terra, as constelações, o universo que conspirava a favor daquela semente.
            Reparo nos pequeninos dentes dela e nas mãozinhas que te puxam a camisola.
 
            - “Pêxe”, avô? “Pêxe”?
 
            Pegas nela, senta-la no teu colo e dás-lhe um beijo ruidoso. E lembro-me do meu avô que, na brincadeira, me trincava os deditos e eu ria muito porque fazia cócegas. Contas a história da fralda e o teu Amor, de caminhos de vida, ri-se. Harmonia deliciosa. Vida de tantos anos em conjunto que se mostra em apenas um olhar de consentimento mútuo. A mesma ideia. Levantas-te, pousas a menina no chão, pegas nas tralhas e enfia-las todas no cestinho que serve para isso. Pego no saco da fralda. Penso naquilo como tudo e todos os que me fizeram mal. O lixo está próximo. E eu sei como se faz…
 
            - Quem vota nos pasteis de Belém?
 
            São 4:50 da tarde, em Belém, num Domingo com cheiro a Primavera. Olho uma última vez para a Ponte. Não lhe vou tocar. Nem com o pensamento. Porque o lixo é para ser posto no caixote respectivo. E já não dói…
 
 
 
 
 
 

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Para o SamuelDabo... Ao seu post dedico-lhe o meu que coitadinho teria que percorrer muitos kms de vida para chegar aos calcanhares da escrita do do Samuel:)

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4 comentários

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De samueldabo a 19.11.2008 às 15:57

miúda maravilha. J....
A tua história é um mimo de literatura. Quero que sintas isso como uma evidência de ti. Tem todos os ingredientes de uma ficção maior, amor, ternura, a profundidade do ser, a ironia inteligente, e o sorriso de uma criança.
Tem apenas um senão, ela é como tu, com 30 meses já não diz pêxe, diz mesmo peixe. Vou dar de comer aos peixinhos. Estou a comer peixe. E é como tu em desenvolvimento.
E tu és como ela em beleza e em inocência e são ambas meus amores, diferentes, mas amores que eu preservo no fundo de mim.
Escreveste uma história que li com muita emoção, esteticamente bem estruturada e que acrescenta uma outra dimensão a esta arte de alimentar um blog.
O lixo ao lixo..., como eu gostei de te sentir.
Parabéns!...
Um outro senão, não fica bem a parte final do texto, o PS sem PS. A modéstia ou a humildade de te sentires pobre, porque na arte de escrever és bem rica, não esbanjes, é tua e essa ninguém te poderá tirar.
Abraço-te minha amiga e beijo o teu rosto de menina bonita com a plena convicção que vamos continuar a escrever esta história...
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De Pobre(o)Tanas a 19.11.2008 às 18:34

Um dia estamos a criar um blog so para as nossas historias:)

Hoje não estou muito famosa com as palavras...Nada me sai para agradecer...
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De Annallegra a 20.11.2008 às 10:35

Eu dou a minha palavra, que volto pra ler com atenção... O Velho e a Miúda - Pescas de vida...

Não quero opinar, só por opinar. Mas quanto ao blog. Deixo por hora... Gostei imenso. A lateral anima bastante os visitantes. Nota 1000. Volto para ler os textos. Parabéns!!!

Ah, já ia esquecendo... Vou me apresentar:
__Meu nome é Anna. Sou lá do blog dos amigos do peito!!! Haha. Meu blog pessoal está em construção.

Beijocas. .Anna*¬
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De Pobre(o)Tanas a 20.11.2008 às 10:49

Obrigada pela visita, Anna! Aguardo pelo teu cantinho tambem para depois te visitar. São precisas horas e horas de dedicação. Eu dedico as que posso.

Volta sempre que quiseres:)

Beijinhos

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