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Agora sou esposa, mãe, completa! Mas continuo minha... Sempre!


03
Abr11
Finalmente alguém que conseguiu expôr o que sinto em relação ao tabaco... Ou à falta dele.

Falo do que o Sociólogo Alberto Gonçalves escreveu na sua coluna "Juízo Final" na Sábado n.º 360, passando a citar algumas passagens porque tentei encontrar o texto online para fazer um mísero copy/paste e não encontrei nada... Também só tentei 1 minuto ou 2...

"Pela primeira vez em quase duas décadas de consumo, podero a hipótese de deixar de fumar (...) Custa? Fisicamente, não tanto quanto a propaganda das terapias de desabituação apregoa. Emocionalmente, desculpem o horrendo termo, é devastador. O problema não passa (sem trocadilho) pela carência imediata: passa pela carência imaginada. O problema é antecipar uma existência sem tabaco.
Queira ou não, recordar a existência com tabaco implica associá-lo a cada instante feliz da minha idade adulta. Se folheio um álbum de fotografias, de papel, disgitais ou mentais, constato uma única permanência.Os lugares são diferentes, as pessoas são diferentes, eu próprios pareço diferente de uns retratos para outros. O cigarro, porém, está sempre lá, e assusta supor que um dia possa não estar. Não é saudade precoce, é a impressão de que talvez o cigarro não se limite a testemunhar os momentos áureos: e se, em razoável medida, foi o responsável por eles?
Nunca ouvi uma ex-toxicómano ou um ex-alcóolico relembrarem com doçura o tempo em que torravam o cérebro ou o fígado. Mas, à semelhança dos amputados, metade dos ex-fumadores que conheço evoca enternecida a época em que o cigarro era parte fixa de si. E suspeito que a metade restante é mentirosa.
Toda agente sabe que, além de um pulmão, fumar pode retirar-ns um pedaço de vida. Falta inventariar os pedaços que acrescenta, uma contabilidade indispensável e impossível."

Gonçalves, Alberto (2011), "Pedaços de Mim", Juízo Final, Revista Sábado, 24-30Março 2011, Pp. 114


As palavras deste homem acalentaram e iluminaram o caminho desta minha alma moribunda pela falta do meu companheiro de tantos e tantos momentos. Afagou-me as costas como que um amigo que está na mesma situação que nós e sabe perfeitamente como nos sentimos ou que descreve aquilo que não conseguimos deitar cá para fora. E por haver alguém que tão bem conhece aquilo que sou enquanto fumadora (ou ex...) sinto-me com forças para continuar esta caminhada. E aqui vamos nós nos 48 dias sem tabaco.

Ontem depois de uma jantarada com amigos do Jacinto em que o ritual de muitos deles sem mantém inalterável levantando-se da mesa, tal e qual como fazíamos, fez com que os meus olhinhos procurassem o primeiro vislumbre de um cigarro a ser sorvido. Aquele olhar envergonhado que é desviado porque a pessoa, sabendo que deixámos de fumar, pode olhar para nós e contemplar não um sorriso mas um esgar de tortura ou um ar completamente transfigurado do nosso ser... Eu estava com medo de me atirar à primeira pessoa que olhasse para mim de cigarro na mão e reclamá-lo para mim tal era a fartura de comida que ainda sentia entre os dentes que me fazia querer aniquilá-la com o sabor de papel queimado com um aroma a alcatrão. Levantámo-nos e fomos ao carro buscar as nossas pastilhinhas de morango e maçã. Para compensar todas estas emoções comi tarte de maçã e bolo de bolacha como se não houvesse amanhã e eu fosse a maior apreciadora de sobremesas que existisse no mundo. Eu que nunca comia destas coisas cheias de natas e açúcar aos punhados dou comigo a revirar os olhos de cada vez que uma colherada cheia de bolachas embebidas em leite condensado se aproxima da minha boca. As papilas gustativas dão saltos e deitam foguetes. A comida tem sido a minha salvação. Mas tenho perfeita noção que estes 7kg que engordei nestes 48 dias me vão trazer dissabores.

Hoje já estou bem... Não tenho vontade alguma de fumar. Amanhã já não sei... Se houvesse um gráfico que medisse as minhas vontades veríamos que a contante não existe...

Ontem pela primeira vez senti falta de ter mais amigos. Ou daqueles que tenho mas estão longe... Já tinha saudades mas ontem revelou-se uma torção de estômago. Os do Jacinto são os dele. Contam-se pelos dedos de uma mão aqueles que posso considerar meus também até porque nestas coisas de amizades sempre gostei de escolher quem quero e não aqueles que vêm por arrasto de quem faz parte de mim. E alguns dele/as dispenso muito bem. Respeito-os e respeito as escolhas do Jacinto. Mas sinceramente tenho alturas que munida de um cigarro nos queixos e uma pá, fazia um bem à comunidade tremendo.

Tenho saudades horrendas deles no entanto esta distância diminuiu os contactos e começo a considerar que amigos mesmo amigos que se lembrem de quem sou de verdade, tirando a família, são zero. Em parte é culpa minha, sei-o perfeitamente. Nunca fui amiga de andar às mensagens, telefonemas... Não gosto que andem em cima de mim e faço o mesmo aos amigos. Durante anos tinha grupinhos engraçados que conseguia manter à base de muita comunicação e saídas mas sei lá eu... As pessoas transformam-se... E não é que me dê trabalho e eu tenha mais que fazer, nada disso, não tenho feitio para me moldar a isso. Não tenho paciência para contar as mesmas histórias 20 vezes e neste mundo a única pessoa que me conhece perfeitamente e as minhas mil e uma aventuras e desventuras é o Jacinto. As pessoas que estão de fora diriam que é mau porque a vida tem mais que uma relação a dois, sei-o e aceito, mas tenho lá eu tempo para me dar a conhecer ou plantar a sementinha da amizade num vaso novo. Deixei de acreditar muito nas pessoas e aqui é tudo tão pequenino que ainda os meus pensamentos estão a caminho da boca já toda uma freguesia inteira os sabe. E tenho muito mas muito que resguardar da minha vidinha e da do Jacinto.

Durante anos estive rodeada de gente mas tão sozinha que questionei a palavra amizade muitas vezes. E outras vezes tão apenas só que me habituei a isso. Daí que esta nossa bolha a dois é tão confortável e segura que meter o nariz de fora e respirar outros ares que outras pessoas respiram, ouvir as suas opiniões e desaforos me causa alergia. Penso que estou tão concentrada na nossa vida a dois, nos nossos planos e criar meios de moldar algo confortável para a nossa existência e da prol que daqui a uns anos nascerá que sinceramente não penso em nada mais. Por vezes prefiro sentar-me ali fora no degrau da porta da cozinha para o quintal e ficar a observar o Pablo e a Pipa a correrem atrás um do outro ou a pedirem-me festas do que ouvir meia duzia de fulanas histéricas a falarem da vida delas ou das outras, do que vão fazer para o jantar ou do preço do arranjo das unhas. Os meus cães têm um poder de reflexão e relaxe muito poderosos e todos os dias dou graças a Deus de os ter porque descanso completamente a cabeça quando os vejo.

Pelo que na sexta-feira ao fim da tarde, depois de uma semana de trabalho, chegámos a casa, mudámos de roupa e fomos até à barragem a pé































E se isto não dá prazer a uma qualquer alma cansada... Não sei o que andamos aqui a fazer...




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O contrato de 6 meses mantêm-se... Foi o que o Dr. Where's Wally? me disse... E se tudo correr bem é para ficar para todo o sempre.

Foi um alívio muito grande, garanto-vos...




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5 comentários

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De Joanina a 04.04.2011 às 01:30

Sabes que venho aqui quase todas as semanas para saber como e que estas? Faz-me bem saber que estas feliz e que estas bem. Nao sei se te posso chamar amiga, nunca nos chegamos sequer a conhecer, mas o carinho que sentia e sinto por ti e real. Desejo-te um mundo de felicidade. Es uma rapariga as direitas! Bj da Jo ;)
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De Pobre(o)Tanas a 05.04.2011 às 23:05

Querida Jo! Julgava-te longe de mim, juro que sim! Apesar da distância e do facto de não nos conhecermos pessoalmente, será sempre a minha titi :)
Existem amizades longínquas e nos tempos que correm destas da internet, que não são físicas mas muitas são bem mais simples, porém durante todos estes anos que nos "conhecemos" o carinho sempre foi recíproco. Obrigada de verdade! Um beijo no coração!
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De Joanina a 06.04.2011 às 23:32

Nao minha querida, eu nao estou longe de ti!! Segui-te do outro blog para este e continuo aqui! Tambem tu continuas a ser a minha "sobrinha" e sempre o seras. Adoptei-te e pronto!! :))Ha coisas que nao se explicam, apenas se sentem! Beijo grande!
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De Agridoceee a 08.04.2011 às 22:05

Tal como a Joanina sinto uma enorme empatia por ti ;) aquilo que escreves vai tão de encontro ao que sinto, temos muitas coisas em comum ;) quem sabe um dia ainda nos conhecemos, sim...porque a familia da minha mãe é toda alentejana ;);) gosto do que escreves e identifico m ctg =)=) um grande beijinho***
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De Pobre(o)Tanas a 20.04.2011 às 19:28

Querida Joanina: nós sempre tivemos aquela sensação do "não sei explicar mas é assim" e penso que isso se reflecte em tudo na nossa vida e naquilo que somos. E fico bastante feliz por haver pessoas assim neste mundo. Por, tal como eu, saberem que sim mas não saberem como... ;)

Agridoceeee: talvez por sermos da mesma idade e termos responsabilidades desde cedo. Fico a aguardar visita pois claro que sim! O Alentejo acolhe sempre aqueles que vierem por bem ou aqueles que cá quiserem ficar!

Beijo enorme a ambas!

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